Furia Em Duas Rodas -
O motorista do Fiesta – um senhor de cabelos grisalhos, óculos de leitura pendurado no pescoço – não o viu. Estava ao telefone, ouvindo a filha dizer que havia passado no vestibular. Ele sorria. Diminuiu mais um pouco, para saborear a notícia.
Um táxi fechou a passagem na altura do Carrefour. Sem pensar, Bruno enfiou a moto no corredor entre o táxi e uma carreta. Menos de dois centímetros de cada lado. A fúria sussurrou: “Você não é ninguém. Prova que é alguém.” Ele provou. furia em duas rodas
O mundo virou câmera lenta.
Bruno perdeu a razão.
Sentado no concreto molhado, com os carros cortando a noite ao lado, ele tirou o capacete. A garoa misturou-se às lágrimas. Não havia ninguém ferido. Não havia batida. Apenas o eco do que poderia ter sido. O motorista do Fiesta – um senhor de
Bruno nunca contou sobre a Marginal. Mas naquela noite, antes de dormir, ouviu o ronco distante de outra moto acelerando na avenida. E, pela primeira vez, não sentiu inveja. Sentiu alívio por não estar mais lá. Diminuiu mais um pouco, para saborear a notícia
Bruno parou no acostamento. Desmontou. As pernas cederam.